Como os X-Men de 1982 ainda explicam o atual Fanatismo
- Ethos +
- 24 de fev.
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Por EthosOpinião - Dr. Bruno Sadamaro Rebouças Ynohaie
Em 1982, as bancas de jornal receberam uma obra que mudaria para sempre a percepção sobre as "histórias de bonequinhos". X-Men: Deus Ama, o Homem Mata, escrita por Chris Claremont e ilustrada por Brent Anderson, não era uma aventura sobre salvar o mundo de alienígenas. Era uma autópsia sobre o ódio humano. Hoje, mais de quatro décadas depois, a HQ deixou de ser uma distopia preventiva para se tornar um reflexo nítido das nossas redes sociais e telejornais.
O Vilão que não usa Máscara
Na obra, o antagonista não é um mutante com poderes destrutivos, mas o Reverendo William Stryker. Ele utiliza a retórica religiosa para desumanizar uma minoria (os mutantes), classificando-os como "aberrações" que afrontam a vontade divina.
Ao olharmos para os dias de hoje, a figura de Stryker encontra paralelos diretos no fanatismo religioso contemporâneo. Não se trata de uma crítica à fé em si, mas ao seu uso como ferramenta política e de exclusão. A história de Claremont mostra como o discurso de ódio, quando revestido de "autoridade moral", valida a violência física. Ontem eram os Purificadores de Stryker caçando mutantes; hoje, vemos o crescimento de ataques a terreiros de religiões de matriz africana ou a perseguição contra a comunidade LGBTQIA+ sob o pretexto de "defesa da família".
A Metáfora Racial e a Desumanização
A abertura da HQ é brutal: duas crianças mutantes são caçadas e executadas, e seus corpos são deixados pendurados em um balanço de escola com um cartaz ofensivo. A imagem evoca diretamente o período sombrio dos linchamentos raciais nos Estados Unidos e a violência do Apartheid.
A comparação com o preconceito racial atual é inevitável. A HQ nos ensina que o preconceito não nasce do medo do poder do outro, mas da necessidade de manter uma hierarquia social. No mundo dos X-Men, o mutante é o "outro" — aquele que é diferente, que "tira o emprego" ou que "ameaça a pureza" da espécie humana. É a mesma lógica perversa que alimenta o racismo estrutural e a xenofobia contra imigrantes no século XXI.
"A questão não é se eles são perigosos. A questão é que eles não são humanos." — Esta frase de Stryker na obra sintetiza o cerne do racismo: antes de ferir alguém, o agressor precisa, em sua mente, retirar a humanidade da vítima.
O Debate como Campo de Batalha
O clímax da história não ocorre com uma explosão, mas em um debate televisivo. É ali que a personagem Kitty Pryde desafia a plateia e o próprio reverendo. Ela expõe a hipocrisia de quem prega o amor divino enquanto segura uma arma contra o próximo.
Em uma era de "bolhas" de informação e algoritmos que privilegiam o conflito, Deus Ama, o Homem Mata nos lembra que o silêncio dos bons é o combustível dos intolerantes. A aliança temporária entre o idealista Professor Xavier e o radical Magneto na história sugere que, diante de um mal que nega a existência do outro, a união não é uma opção, mas uma estratégia de sobrevivência.
Conclusão
X-Men: Deus Ama, o Homem Mata permanece relevante porque a humanidade ainda não resolveu os problemas que ela denuncia. A HQ nos convida a olhar para o espelho e perguntar: estamos construindo pontes como Xavier, ou estamos, silenciosamente, permitindo que novos "Strykers" ditem quem merece ou não viver em nossa sociedade?
A ficção científica de 1982 nunca foi tão real nos tempos atuais.

Dr. Bruno Sadamaro Rebouças Ynohaie - Advogado OAB/SP 439.602



Muito bom!