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Reféns do Agora: o imediatismo digital moldando a sociedade

Entrevista da Semana: a ansiedade por novidades faz com que pessoas leiam apenas manchetes, compartilhem conteúdos sem verificar a veracidade e formem opiniões em segundos


Por Breno Guarnieri


Tudo precisa acontecer agora. A resposta tem que ser instantânea, a notícia precisa chegar primeiro, a compra deve ser entregue no mesmo dia e a satisfação não pode esperar. Na era das redes sociais, o imediatismo digital deixou de ser apenas uma característica da internet e passou a moldar o comportamento das pessoas.


Em entrevista à reportagem do portal Ethos +, Aline Fulconi, psicóloga integrativa e palestrante, ressalta que a busca constante por velocidade tem alterado hábitos, relações pessoais e até a forma como consumimos informação.

 

Ethos +: O que é o imediatismo digital e como influencia o comportamento das pessoas?


Aline: O imediatismo digital é a ideia de que tudo precisa acontecer agora. Estamos tão acostumados a pedir uma comida pelo Ifood e acompanhar a entrega em tempo real, enviar uma mensagem pelo WhatsApp e esperar resposta imediata, ou pesquisar qualquer informação em segundos, que passamos a ter dificuldade para lidar com processos que exigem tempo. Na prática, isso aparece quando a pessoa desiste de um projeto porque os resultados não vieram rápido, fica ansiosa porque alguém visualizou a mensagem e não respondeu, ou acredita que está fracassando porque sua vida não evolui na mesma velocidade que vê nas redes sociais. O problema é que a vida real continua exigindo paciência, construção e persistência.

 

Ethos +: Existe uma relação entre notificações constantes e estresse emocional?


Aline: Sim. Imagine alguém que está trabalhando, mas a cada poucos minutos recebe uma mensagem no WhatsApp, uma notificação do Instagram, um e-mail e uma atualização de algum aplicativo. O cérebro precisa interromper o que está fazendo para processar cada estímulo. Ao final do dia, muitas pessoas relatam estar exaustas, mesmo sem terem realizado atividades fisicamente cansativas. Isso acontece porque a mente permaneceu em estado de alerta constante. É como se o cérebro nunca tivesse a oportunidade de realmente descansar.

 

Ethos +: A comparação com a vida de outras pessoas pode gerar sofrimento psicológico?


Aline: Com muita frequência. Uma pessoa pode abrir as redes sociais e encontrar alguém viajando, outra comprando um carro, uma casa, outra recebendo uma promoção e outra aparentemente feliz em um relacionamento perfeito. Enquanto isso, ela está enfrentando dificuldades financeiras, problemas familiares ou inseguranças pessoais. A comparação acontece sem que ela perceba. Aos poucos, surge a sensação de que todos estão avançando enquanto ela está parada. O que muitas vezes esquecemos é que estamos comparando os bastidores da nossa vida com o palco das outras pessoas, ou seja, os melhores momentos que os outros decidiram mostrar.

 

Ethos +: Quais hábitos digitais ajudam a reduzir a pressão causada pelas redes sociais?


Aline: Pequenas mudanças fazem diferença. Por exemplo:

* Não pegar o celular nos primeiros minutos após acordar.

* Fazer refeições sem ficar rolando o feed.

* Silenciar notificações que não são urgentes.

* Reservar momentos do dia para estar presente com a família e amigos.

* Evitar o hábito de comparar sua rotina comum com a vida editada das redes.

Muitas pessoas percebem que, quando diminuem o tempo online, voltam a prestar atenção em coisas simples, como uma conversa, um hobby ou um momento de descanso, que antes passavam despercebidos.

 

Ethos +: Qual é o maior desafio para quem busca equilíbrio entre a vida digital e a vida real?


Aline: O maior desafio é estar fisicamente presente, mas mentalmente conectado o tempo todo. É comum vermos famílias reunidas em uma mesa, mas cada pessoa olhando para sua própria tela. Casais assistindo a um filme enquanto checam mensagens. Pais brincando com os filhos e interrompendo a interação para responder o WhatsApp. O equilíbrio não significa abandonar a tecnologia, mas aprender a usá-la sem perder a qualidade das experiências reais.

 

Ethos +: Que mensagem deixaria para quem sente que está emocionalmente dependente das redes sociais?


Aline: Se você percebe que seu humor muda de acordo com a quantidade de curtidas, comentários ou visualizações que recebe, talvez seja o momento de fazer uma reflexão. As redes sociais podem dar visibilidade, mas não substituem autoestima. Podem gerar conexão, mas não substituem relacionamentos profundos. Podem trazer reconhecimento, mas não definem o seu valor. Pergunte a si mesmo: “Quem eu sou quando desligo a tela?” Quanto mais fortalecemos nossa identidade, nossos relacionamentos e nossos valores fora do ambiente digital, menos dependentes nos tornamos da validação online. “Sua vida não acontece na tela. Ela acontece nos encontros, nas conversas, nos desafios superados e nos momentos que nenhum algoritmo é capaz de medir. Quanto mais você se conecta consigo mesmo, menos precisa da aprovação que vem de fora".


Aline Fulconi - CEO da Integra Saúde Emocional nas Empresas

 
 
 

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