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Mulheres na política: sonhos grandes, barreiras persistentes

"Entrevista da Semana": o caminho ainda é desafiador, mas cada nova candidatura feminina representa um passo importante para transformar a política em um espaço mais plural


Por Breno Guarnieri -


Mulheres que sonham em entrar na política ainda enfrentam um caminho mais difícil do que seus colegas homens — mas isso não tem impedido avanços importantes. A presença feminina vem crescendo, embora ainda esteja longe de refletir a proporção de mulheres na sociedade.


Em entrevista à reportagem do portal Ethos +, Juliana Lima, advogada e vice-prefeita de Meridiano, ressalta que para muitas mulheres o interesse pela política nasce cedo. No entanto, transformar esse interesse em candidatura envolve obstáculos estruturais.

 

Ethos +: O que a motivou a entrar na política e assumir o cargo de vice-prefeita de Meridiano?


Juliana: Meu interesse pela política começou ainda na faculdade de Direito. Sempre gostei muito de acompanhar os debates públicos e tive a oportunidade de fazer estágios ligados à área, inclusive na Câmara dos Deputados, em Brasília. Naquela época, eu imaginava que minha atuação seria mais nos bastidores, trabalhando como advogada na área política ou eleitoral, ajudando na construção de projetos e campanhas. Mas a vida acabou me levando para outro caminho. Em um determinado momento, fui convidada para ser candidata a vereadora. Curiosamente, esse convite surgiu inicialmente por causa da cota de participação feminina nos partidos. E aquilo me causou uma certa revolta no sentido positivo: eu não queria ser apenas um nome para cumprir formalidade. Se eu entrasse na política, seria para trabalhar de verdade e fazer a diferença. Sempre fui muito movida por inconformismo diante das coisas que considero erradas. A política está presente no nosso dia a dia e muitas decisões que impactam a vida das pessoas são tomadas nesse espaço. Então percebi que, em vez de apenas criticar ou acompanhar de fora, eu poderia contribuir diretamente para melhorar a realidade. Fui eleita vereadora e tive um mandato muito ativo, apresentando diversos projetos e buscando recursos para o município. Esse trabalho acabou me projetando e, posteriormente, fui convidada para compor a chapa como vice-prefeita. Aceitei o desafio com o mesmo espírito que me levou à política: a vontade de ajudar a transformar a realidade da nossa cidade e mostrar que é possível fazer política com responsabilidade, preparo e compromisso com a população.

 

Ethos +: Quais foram os maiores desafios no início da sua trajetória política?


Juliana: No início da minha trajetória política, um dos maiores desafios foi justamente conquistar credibilidade sendo muito jovem. Quando uma pessoa nova entra na política, especialmente em uma cidade pequena, muitas vezes existe um olhar de desconfiança, como se juventude fosse sinônimo de falta de preparo ou de experiência. No meu caso, acredito que a minha formação em Direito ajudou a demonstrar seriedade e base técnica, mas ainda assim foi preciso provar, na prática, que eu estava preparada para exercer aquela função. Outro desafio importante foi ser mulher em um ambiente que ainda é muito masculino. Muitas vezes, a mulher precisa demonstrar competência o tempo todo para ser levada a sério, enquanto para os homens isso, em muitos casos, já é presumido. Isso exige muito equilíbrio emocional, firmeza e constância. Também enfrentei momentos políticos difíceis, inclusive dentro de um contexto de instabilidade e processos que acabam afetando o ambiente político e institucional, como processo de cassação da Chefe do Executivo na época. Em situações assim, o desafio é manter a serenidade e com responsabilidade e não se deixar contaminar por pressões ou até mesmo se corromper. Além disso, talvez um dos maiores desafios tenha sido tentar mudar a forma como muitas pessoas enxergam a política, principalmente em cidade pequena. Ainda existe uma cultura muito assistencialista, em que às vezes se espera que o político resolva questões individuais de maneira pessoal, quando, na verdade, o papel do agente público é trabalhar pelo interesse coletivo, com políticas públicas sérias, estruturadas e que melhorem a vida da população como um todo. Fazer essa mudança de mentalidade não é simples, mas eu sempre acreditei que política boa é aquela que traz resultado para a cidade inteira, e não favores para alguns.

 

Ethos +: Você acredita que as mulheres ainda enfrentam mais dificuldades para ocupar cargos políticos?


Juliana: Acredito que sim, mas não gosto de tratar isso sob a ótica do vitimismo, e sim da realidade. A mulher, de forma geral, já lida naturalmente com múltiplas responsabilidades. Muitas vezes, ela é mãe, esposa, profissional, e precisa conciliar várias jornadas ao mesmo tempo. Entrar na política, que já é uma área extremamente exigente, acaba sendo mais um desafio dentro dessa rotina. Além disso, a política historicamente sempre foi um ambiente majoritariamente masculino, e isso ainda se reflete em algumas barreiras, principalmente culturais. Muitas vezes, a mulher precisa demonstrar sua capacidade mais vezes até conquistar esse reconhecimento. Mas, ao mesmo tempo, eu vejo avanços importantes acontecendo. Um exemplo claro é a própria advocacia, que durante muito tempo também foi uma profissão predominantemente masculina e hoje já é majoritariamente feminina no Brasil, com mais de 50% das profissionais sendo mulheres. Isso mostra que, com o tempo, preparo e ocupação de espaço, essa realidade pode mudar. Eu acredito muito na capacidade e na preparação. Quando a mulher está preparada, sabe o que está fazendo e tem propósito, ela conquista esse espaço, e isso tem acontecido cada vez mais. Então, sim, ainda existem desafios, mas estamos em um momento de transformação. E eu acredito que o caminho é justamente esse: ocupar esses espaços com preparo, responsabilidade e muito trabalho, mostrando na prática que política não tem gênero, tem compromisso com resultado.

 

Ethos +: Já enfrentou situações de preconceito na política? Como lidou com isso?


Juliana: Sim, principalmente no início da minha trajetória. Quando fui eleita vereadora, por ser jovem e a única mulher eleita naquele momento, algumas pessoas chegaram a acreditar que eu seria apenas uma figura decorativa ou até mesmo massa de manobra dentro da política. Mas, na prática, aconteceu exatamente o contrário. Sempre tive uma postura muito independente e mostrei, desde o início, que eu não estava ali para ocupar espaço de forma simbólica, e sim para trabalhar, estudar e me posicionar com responsabilidade. Com o tempo, fui construindo minha atuação com base em resultados, apresentando projetos, buscando recursos e participando ativamente das decisões importantes para a cidade. Isso foi essencial para demonstrar que eu não precisava estar à sombra de ninguém para exercer meu papel. Acredito que esse tipo de situação, muitas vezes, está ligado a uma visão ultrapassada sobre o papel da mulher na política. E a melhor forma de lidar com isso não é com confronto, mas com postura, preparo e entrega. Foi assim que eu construí meu espaço e continuo construindo todos os dias.

 

Ethos +: Qual é a importância de ver mulheres em cargos como vice-prefeita para as futuras gerações?


Juliana: A representatividade tem um papel muito importante, principalmente na forma como as novas gerações enxergam o próprio futuro. Quando uma menina vê uma mulher ocupando um cargo como o de vice-prefeita, prefeita ou qualquer posição de liderança, ela passa a entender que aquele espaço também pode ser dela. Mas, para além da representatividade, eu acredito muito no exemplo. Não basta estar no cargo, é preciso mostrar, na prática, que é possível exercer a função com responsabilidade, preparo e resultado. Isso gera confiança e abre caminho para que outras mulheres também se sintam capazes de participar da vida pública. No meu caso, existe também um peso de responsabilidade por saber que sou a primeira vice-prefeita eleita ligada ao movimento que eu faço parte (Movimento Brasil Livre). Isso me motiva ainda mais a fazer um trabalho sério, porque eu sei que estou ajudando a construir uma referência. Eu acredito que cada mulher que ocupa um espaço de liderança não representa apenas a si mesma, mas ajuda a ampliar as possibilidades para outras. E quanto mais mulheres qualificadas estiverem na política, mais natural isso vai se tornar para as próximas gerações.

 

Ethos +: Que conselho você daria para mulheres que sonham em entrar na política?


Juliana: O principal conselho que eu daria é: não espere se sentir 100% pronta para começar. Se prepare, estude, entenda a realidade, mas não espere o momento perfeito, porque ele não existe. A política precisa de mulheres que tenham coragem de dar o primeiro passo. Hoje, as mulheres são a maioria do eleitorado brasileiro, mas ainda são minoria nos espaços de decisão. Isso precisa mudar. Não faz sentido que a maioria da população não esteja devidamente representada onde as decisões são tomadas. E mais do que ocupar espaço, é fundamental ocupar com independência, preparo e posicionamento. A política precisa de mulheres que pensem por si mesmas, que não aceitem ser apenas figurativas e que estejam dispostas a enfrentar os desafios com responsabilidade. O Brasil precisa de mais mulheres que façam, que decidam e que tenham coragem de assumir o protagonismo. E quem sente esse chamado não pode ficar esperando, precisa entrar e fazer acontecer. A mulher já é maioria nas urnas, agora precisa ser maioria nas decisões.


Juliana Lima, advogada e vice-prefeita de Meridiano

 
 
 

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